Ontem eu preparei aquela última dança para nós , mas infelizmente você não pode vir , deixou recado na secretária eletrônica , pedindo mil desculpas pelo constrangimento e dando mais outras mil pelo fato de não assumir suas verdades .
Ontem eu preparei o ambiente propício para um adeus mais digno ,e então você iria se deparar com toda a minha simpatia num lindo vestido preto , que eu mesma escolhi para a ocasião, com um cabelo arranjado e toda uma maquiagem bem feita que não ligava nem um pouco se ao final fosse toda borrada.
Quis então te ligar de volta, como se esperasse ao menos você atender. Quis também falar mil coisas enquanto aos prantos, rasgava toda a falsidade embutida ao longo desse tempo. Eu poderia me afundar em minhas próprias mágoas, ou então construir inúmeros barquinhos de papéis com toda essa ilusão propriamente flexível, e deixar em algum bueiro por ai, para que talvez fossem levados juntamente, com toda merda que fora plantada dentro do meu coração.
Eu não prestava ?! Eu realmente era carta fora do baralho pra você ?! eu não quero mais saber destas vagas noites de insônia, onde eu pude decorar toda a história da Bíblia, rezando pra que talvez Deus pudesse salvar a sua e a minha alma, onde Freud me vinha com toda sua obscenidade e me fazia repensar se o sexo realmente era algo tão amoroso.
Decidi, por me levantar, e não ficar mais com esses absurdos devaneios que me tiravam da realidade. Arrumei os talheres, os pratos e os copos, também a mesa, como nunca havia feito antes , a comida já estava no ponto, o microondas já fazia sinal para que eu tivesse absoluta certeza disso. Sentei-me com a mais profunda dignidade e me pus a comer, mastigava bem devagar para ir saboreando a cada pedaço o gosto amargo que o só o fim consegue ter.
O telefone então novamente se punha a tocar, e mesmo sabendo eu, do que se tratava, deixei que tocasse pelo resto da noite, ainda havia em mim, algo que me permitia o amor-próprio, eu poderia até estar sendo negligente em não lhe contar a verdade, mas consegui te matar no instante em que as velas se apagaram. Eu estava em total escuridão.
A luz da esperança podia se encontrar fraquinha , mais em outros rumos bem distantes da realidade., eu não sei o que acontece quando tudo o que se mais quer , é esquecer que um dia a sua vida fez parte da minha, você após setenta e duas horas de nostalgia experimenta ser quem nunca foi, experimenta não ser um super homem, mais sim a força que ele tem.
E agora me encontro aqui, deitada frente à nossa foto de 3 anos de namoro, 3 anos só ?! Afinal o que foram feitos desses momentos tão preciosos, que pra mim foram uma vida?! É eu agora me levanto, não quero mais saber desse tal de amor, ele bateu na minha porta, eu boba, apressada,eu acho, fui e abri. Maldita ansiedade, maldita ora em que você esquece que os olhos válidos são os do seu rosto e não os do coração. Aliviar disso?! Demora.
Olho pro céu e vejo duas luas, aliás duas não três, percebo que o vinho já ta fazendo um efeito danado, tiro a roupa e vou pro chuveiro me lavar dessa noite de horrores.
O teto tão branco, tão ... teto! Ele não tem escolhas a não ser a de ser um simples, teto!Eu gostaria de ser assim, de ser simplesmente ... eu! E não a desorganizada,fofa,idiota,sorridente,irresponsável,distraída,besta,maluca,covarde,estranha,dramática,esquizofrênica,ansiosa,simpática,rude,imbecil,sarcástica,chorona e com uma TPM do cão quando os instintos assassinos tendem a se manifestar.
É então que olho pro lado e sorrio, olho pra ele e ele pra mim, a luzinha mesmo que pequena da esperança reacende novamente, e eu estou pronta pro maior amor do mundo, pra ele... só pra ele! Me levanto indo em direção ao seu encontro, o pego em meus braços e o abraço, o aperto, o cheiro , ele então me faz perceber o quanto fui boba durante esse grande espaço de tempo separados. A cama é grande e não há de ser hoje que dormirei sozinha, ele me protegerá e o mesmo eu farei.
Aqui estou eu, agarrada ao meu sapo enorme de pelúcia, pelo qual tenho o maior apreço do mundo, quando nas noites frias você não vinha, ele me ouvia e absorvia todas as lágrimas que dos meus olhos conseguiam escapar, e por mais que eu falasse mais que tudo, ele sempre ficava assim, imóvel, me escutando ... talvez eu só precisasse disso, e talvez eu precise de você aqui no outro lado da cama agora, nós três ... e meu sapo não iria reclamar, ele é perfeito, eu juro !
Acordo e tateio a cama, encontro Aníbal bem ali, do meu lado, sorrio e lhe dou um beijo de bom dia. Ponho os pés no chão e no desequilíbrio consigo me ferir com os cacos do porta-retrato, ‘Como ele veio parar aqui ...’ eu penso. Calmamente,agora, recolho caco por caco e jogo no lixo. E a nossa foto ?! Bem , analisando agora todas as marcas do porta-retrato em meu corpo, e as cicatrizes formadas pelos cortes, acho que não precisarei de mais nada, pra provar e lembrar a mim mesma que você existe.
Porta-Retrato
07:00 |
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